Crônica: ASSASSINATO SOCIAL

Crônica: ASSASSINATO SOCIAL

Helio Baragatti Neto

 

                Afirma-se que uma sociedade inicia seu progresso no momento em que sua tacha de mortalidade infantil começa a diminuir. O que dizer, no entanto, quando cada vez mais crianças perecem, tendo, como agentes responsáveis pelos seus decessos, pessoas cujo dever, em tese, era protegê-las, a saber: mães, madrastas, pais e padrastos?

                Seus nomes, rostos e casos se sucedem incessantemente nas telas das TVs, alimentando a insaciável sanha sensacionalista das tardes policialescas de grande parte das emissoras, sem que nos atentemos para a gravidade inquestionável de tal situação.

                Muitos foram os adultos que, sucumbindo ao apelo de certas facilidades tecnológicas, buscaram suprir suas ausências no âmbito familiar entregando seus filhos e/ou enteados a companhias desprovidas de alma, como aparelhos de televisão, micro-computadores e telefones celulares. Atualmente, postos em face da obrigação de conviverem proximamente com as crianças confiadas a seus cuidados, em virtude da pandemia enfrentada pelo mundo, tais adultos viram-se incapazes de desempenhar o que deles se esperava e, em lugar de vencerem a referida incapacidade, optaram por eliminar de suas vidas as crianças, interrompendo-lhes a existência no trecho inicial de seu curso. São casais que tiveram filhos somente para dizer que os tinham, a fim de prestarem uma satisfação à sociedade, e amantes que, com a finalidade única de impressionarem os alvos dos seus desejos, comprometeram-se a assumir as funções e condições de madrasta ou padrasto.

                Agem covardemente, à semelhança do ReiHerodes, que, temendo os revezes que lhe causaria a chegada do Messias, ordenara o assassinato de todas as crianças menores de dois anos em seu reino, e de certo Faraó egípcio, que, em tempos do nascimento de Moisés, decretara a morte de bebês hebreus.

                Esquecem-se, tanto quanto nós, de que, ao matar-se uma criança, furta-se à humanidade a oportunidade do avanço, sendo, portanto, todo infanticídio, um irrefutável aborto social.

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